Quando chegou perto dos seus companheiros, estava derreado. Aqueles abanavam freneticamente as pontas dos chapéus avisando irritação. Foram horas até que elf Claus se dignasse a dar sinal de vida. E chegado não se justificou. Sentou-se para recuperar algum fôlego e ficou mudo. Um vazio, um vazio inexplicável tomou conta dele. Sabia agora - muito melhor do que quando o sábio da sua antiga aldeia o dissera - que não podia salvar o mundo, ajudar os necessitados, repor as injustiças. Que poderia, quando muito, tentar salvar-se, passar por entre as gotas da chuva e, quem sabe, pelo caminho, ajudar um amigo...
Parecia-lhe pouco. Tentaria, pelo menos, ser justo, mesmo que para isso tivesse que vir a ser implacável com um amigo. E foi quando pensou isto, foi quando teve este exacto pensamento que perdoou Golguier. Afinal, o amigo fez o melhor pelo grupo e pelo objectivo do grupo: chegar a Urukk. Golguier foi implacável a defender aquilo que naquele momento era o mais correcto. Não havia qualquer hipótese de salvar aqueles pequenos seres da floresta. Está certo que enganou Claus, está certo que só pensou em salvar-se a si e aos seus, está certo que de uma certa forma traiu Claus, porque combinaram salvar os seres escravizados pelos Belkiers... Está certo que a mentira era uma mágoa que iria levar o seu tempo a passar. Mas teria sido uma mentira calculada ou uma decisão fruto de uma constatação de última hora?, perguntava.
Para já, lembrava-se das frases da árvore da regeneração: "...eles não fizeram nada por eles próprios... Em cada um a vaidade e o medo... Todos queriam um lugar, todos queriam almoçar com os Belkiers... Os Belkiers são o que são, os outros queriam ser como eles... A verdade é que os pequenos seres caminharam a passos largos para aqui." Seria isto justificação que bastasse? Poderia a maldade de uns resumir-se, afinal, à cobardia de outros? Poderia haver assim explicações tão óbvias? E poderia ser ele o único a não ver? E onde estavam as poções mágicas que colocavam o universo no seu lugar? Aquelas de que falavam as missivas que recebia dos duendes de outras aldeias?
Bom, estava na hora de partir porque ainda não estavam a salvo. E estava na hora de pedir desculpa. Mas antes chamou Irtka. Apenas Irtka, com a sua frontalidade, lhe iria dizer o que pretendia saber.
-Por que é que esperaram por mim?
-Como dizes?
-Por que é que arriscaram as vossas vidas por mim?
-Assim está melhor. Arriscamos, dizes bem, as nossas vidas por ti, porque o fizemos por nós. Porque tu tens uma coisa que nós não temos.
-O que é?
-Tu acreditas.
-...
-Acreditas que é possível chegar a Urukk, por exemplo. Acreditas que é possível aquilo que as evidências e a probabilidade contrariam.
-Irtka, e se eu te disser que já não acredito em nada?
-Se me disseres isso, eu digo-te que és um elf chorão, porque ainda não viveste nada para deixar de acreditar no que quer que seja. E como não és um cínico, não te faças de ancião. Não queiras ultrapassar as barreiras do tempo. É ridículo. Está na tua natureza acreditar, como na de um escorpião matar. Por muitas chuvas e lamas que amachuquem a ponta do teu chapéu, acreditarás sempre.
-Em quê?
-Em qualquer coisa. E agora levanta-te, que até Urukk há muito mapa a percorrer.
-Por que é que esperaram por mim?
-Como dizes?
-Por que é que arriscaram as vossas vidas por mim?
-Assim está melhor. Arriscamos, dizes bem, as nossas vidas por ti, porque o fizemos por nós. Porque tu tens uma coisa que nós não temos.
-O que é?
-Tu acreditas.
-...
-Acreditas que é possível chegar a Urukk, por exemplo. Acreditas que é possível aquilo que as evidências e a probabilidade contrariam.
-Irtka, e se eu te disser que já não acredito em nada?
-Se me disseres isso, eu digo-te que és um elf chorão, porque ainda não viveste nada para deixar de acreditar no que quer que seja. E como não és um cínico, não te faças de ancião. Não queiras ultrapassar as barreiras do tempo. É ridículo. Está na tua natureza acreditar, como na de um escorpião matar. Por muitas chuvas e lamas que amachuquem a ponta do teu chapéu, acreditarás sempre.
-Em quê?
-Em qualquer coisa. E agora levanta-te, que até Urukk há muito mapa a percorrer.
Por esta altura já estava Golguier a preparar as cordas e os mapas e a traçar rotas. Tudo ao mesmo tempo. Claus aproximou-se, mas mal lhe conseguia falar. Sabia apenas que gostava dele, muito, e, portanto, iria dar tempo ao tempo. Irtka ouvia atentamente todas as possibilidades e pensava naquele que seria o melhor caminho a tomar; e Mirkles preparava uma poção mágica para os fortalecer a todos. Um manjar divino, daqueles que dão força ao mais fragilizado dos seres. Só Mirkles sabia alimentar esta gente, só a comida dela aquecia por fora e por dentro. Só Mirkles com as suas "iguarias elf" adormecia a melancolia de Claus. E esta era dos elfgods, feita com pós de açnarepse, uma planta raríssima.
Outra coisa, no entanto, preocupava Claus. Por que razão teria Malka escondido os planos dos Belkiers dentro do seu chapéu? O que iria fazer com eles? E por que não partilhava isso com os seus companheiros? Quem era Malka, afinal?
Ao lado, um pouco distantes como sempre, estavam Leilyii e Kail. O primeiro a preparar-se alegremente para as próximas aventuras, quanto mais desafiantes, melhor. O segundo estava a ensaiar penteados novos em frente a uma poça de lama. Pretendia antes da refeição de Mirkles calçar umas botas novas que fizera com umas folhas de uma planta desconhecida.
A hora do repasto chegou. De barriga cheia os chapéus elfs trabalham melhor e quando as suas pontas inclinam totalmente e muito coçam as cabeças, uma decisão está para chegar. E chegou, pela voz de Irtka.
-Vamos pelo caminho das árvores cansadas. É mais longo talvez, mas parece ter menos armadilhas.
-Explica-te. -pediu Golguier.
-É caminho de menos chuvas, logo de menos lamas, logo, por longo que seja, será com menos dificuldades. Além disso, as árvores fazem sombra durante o dia e dão bons pousos durante a noite.
-E onde nos levará?
-A próxima paragem? Não sei.
-Vamos pelo caminho das árvores cansadas. É mais longo talvez, mas parece ter menos armadilhas.
-Explica-te. -pediu Golguier.
-É caminho de menos chuvas, logo de menos lamas, logo, por longo que seja, será com menos dificuldades. Além disso, as árvores fazem sombra durante o dia e dão bons pousos durante a noite.
-E onde nos levará?
-A próxima paragem? Não sei.
Noite cerrada e viagem. Para trás ficaram os Belkiers e os pequenos seres da floresta. No coração de Claus a certeza de que alguns, os mais temerários, escaparão; e de que outros morrerão com a coragem de quem tentou libertar-se. Agora era olhar para a frente. Ainda faltava um bocado até chegar ao início do caminho das árvores cansadas. Todos, cada um com os seus pensamentos, queriam muito prosseguir.
Atrás de Leilyii, Kail lá vai a tropeçar nos próprios pés...
(Continua)
Leonor Paiva Watson
Leonor Paiva Watson