Domingo, Agosto 28, 2011

VII- Claus, o pacto com os deuses do Odem

Enquanto puderam optaram pela discrição. Aguentaram sem serem vistos pelo homem da barba bicuda uns cinco dias, a medir pelo número de refeições tomadas. O pequeno homem demonstrava alguns estranhos hábitos e os seis amigos precisavam ficar atentos. Aci - o homenzinho - tinha longas conversas com cada uma das árvores que cuidava. Parecia que tinha uma história para cada uma delas, ou melhor, parecia que cada uma tinha uma história de vida sobre a qual ele lamentava ou aconselhava. Tratava-as como pessoas. Pessoas que não podem responder, presas a uma vontade Maior, alheia à sua.

Contrariando as primeiras impressões, o pequeno homem tinha ainda momentos que pareciam aos duendes de uma imensa melancolia. Quando acabava de tratar das árvores, sentava-se perto de uma delas e ficava a olhar o infinito. Apenas nessa altura cantava uma música muito triste: "Nana nina, pequenina/ tua mãe logo vem/ foi lavar os seus pezinhos/ ao tanquinho de Belém". Ficava muito tempo com os olhos pretos cravados em lado nenhum. Depois, levantava-se apressado e começava com as músicas alegres outra vez. Parecia convencido de ter sorte, ou, pelo menos, conformado com a sorte que tinha.

No final de cada jornada de trabalho, dirigia-se sempre para uma árvore maior, enorme, parecia uma sequóia. E lá falava com deferência e submissão. "Pronto pai Seomac, já está. Já as podei, reguei, arranjei, continuam lindas como sempre. Algumas rezingonas pai, mas lá lhes digo que tem que ser, que o lugar delas é aqui. Algumas queixam-se de que lhes dói as raízes, que estas estão longas de mais, que não têm espaço para respirar. Eu digo-lhes que o lugar delas é aqui, que a família deve estar a lado da família, que devem conformar-se com a sorte que têm, que o Mundo lá fora é mau e cheio de perigos, que têm sorte por terem quem cuide delas. Enfim, pai. O mesmo de sempre...". Seomac nunca respondia, mas parecia aos duendes que acenava com a cabeça, como se concordasse com Aci.

O que se passaria ali? Quem era aquele homenzinho? Qual seria a sua história? Por que falava ele com as árvores daquela maneira? Por que dava satisfações àquela árvore maior? Seria louco? Ter-se-ia perdido da família? Teria sido expulso da sua família, da sua terra, teria passado por que guerras? Tantas eram as perguntas que faziam os duendes enquanto olhavam Aci e o seu bizarro comportamento. Tanta era a estranheza que sentiam nos seus corpos à medida que iam caminhando.

Os pés de Claus e de seus companheiros estavam cada vez mais pesados e cada passo era uma dificuldade crescente. Os duendes estavam no caminho das árvores cansadas há quase 10 dias, sempre no carreiro mais largo - embora de lá observassem o périplo feito por Aci nas veredas mais estreitas - mas não havia maneira de chegarem ao fim do caminho, onde estava Seomac, a árvore maior. Não havia maneira de chegarem ao fim deste caminho.

- Andamos há dias. Que sítio é este onde o Sol não nasce nem se põe? Onde a luz é sempre a mesma e o verde das árvores parece cristalizado. Onde nunca se vê sombra, onde nem as nossas sombras existem... Que lugar é este?
- Tens razão Claus. Precisamos de sair daqui, mas como?
- Tenho uma ideia Malka.
- Diz Leillyii.
- Devíamos seguir o homenzinho para todo o lado, não ficar a vê-lo apenas daqui. Quando ele se afasta para dentro da floresta, deveríamos arriscar, deveríamos saber onde mora, deveríamos entrar na casa dele e procurar alguma coisa, alguma pista.

Os chapéus de todos os nossos elfs começaram a agitar-se. Leillyii tinha a sua razão, mas era arriscar muito. E se o homenzinho fosse mau? Está bem que era do tamanho deles, mas andava de saco com machados e tesouras de poda e cordas.
-Eu arriscaria.
-Por tua causa é que estamos aqui, Irtka.
- E quem és tu para atacar Irtka, Kail. Tu, que passas a vida a tropeçar nos próprios pés, que nos arranjas problemas, cais em armadilhas e nos obrigas a defender-te, mesmo quando não tens defesa possível?
- Golguier, tu és um duende sensato. Pára de atacar Kail, não é hora para isso. Temos que arriscar.
- Tu Mirkles, tu queres arriscar?
- Não percebo o teu espanto Golguier. Não percebes que, provavelmente, não sairemos daqui se não fizermos nada? Quem nos garante que metade destas árvores não são elfs como nós que entraram aqui e foram engolidos pela terra e se transformaram em árvores contra a sua vontade?

O murmúrio das árvores aumentou, um som inenarrável, tão triste como o olhar do homenzinho, espalhou-se pelo ar. Os chapéus dos nossos amigos agitaram-se ainda mais. Todos aqueles pensamentos eram arrepiantes. Tinham que sair dali...

- Temos que sair daqui. Está decidido. Abandonaremos o caminho largo e seguiremos o homenzinho pelas veredas até ao sítio onde ele mora.
- E achas que conseguiremos Claus? Os nossos pés estão cada vez mais pesados. E doem.
- Irtka, se não arriscamos, não conseguiremos mesmo sair daqui. Se arriscarmos temos, pelo menos, uma pequena hipótese. Tu disseste há pouco para arriscarmos. E eu vou.

Estava decidido. Iriam espiar Aci fosse ele por onde fosse. E Claus decidiu em segredo que iria dar mais ahua do ôom aos seus parceiros. Precisavam de resistência. Não iria ser tarefa fácil sair dali, pressentia.

Assim fizeram, assim que viram Aci novamente seguiram-lhe os passos. Deixaram o carreiro largo e seguiram-no pelas veredas. Custava a acreditar que aquele pequeno homem tomasse conta de tudo e que, no final, fosse sempre prestar esclarecimentos a Seomac. No final do dia, ia para o seu abrigo, dentro de uma árvore com mais duas árvores de pequeno porte ao lado. Tudo muito perto de Seomac. Para espanto de Claus e dos seus amigos, Aci tratava a árvore onde vivia como esposa e as árvores contíguas mais pequenas por filhos. Falava com eles normalmente. Das árvores, sempre o mesmo lamento...

Certo dia, enquanto Aci tratava as suas árvores, os seis duendes entraram na sua casa. Depois de procurarem por algo que pudesse explicar aquele estranho lugar e aquele estranho homem - depois de procurarem, enfim, uma pista que explicasse o facto de irem ficando agarrados pelos pés àquela terra - encontraram um álbum de fotografias. Numa fotografia estava um menino que parecia ser Aci com uma menina um pouco mais velha. Atrás estava escrito: "Eu e Ôn, a minha irmã". Numa outra estavam três miúdos: ele, a tal irmã e uma outra criança. No verso da foto, a terceira pessoa estava também identificada como irmã. Seu nome era Asle. Ainda uma terceira mostrava Aci bem mais novo abraçado a um homem. A foto dizia: "Eu e o meu pai Seomac".
- A foto diz pai Seomac?
- Diz, Irtka.
- Isso é o que ele chama à árvore maior sempre que vai falar com ela.
- Sim, aquela que ele visita sempre no final do seu trabalho.
- Mirkles, ele chama à árvore o nome do pai. É um louco.
- Não, se calhar perdeu o pai e toda a sua família e vê nestas árvores a sua substituição.
- Não Mirkles. Isso teria muita lógica, não fosse o facto de nós mal conseguirmos andar, de nós estarmo-nos a transformar em árvores. E já alguém reparou no som que paira no ar. Parece que as árvores se queixam.
- Que disseste Claus?
- Disse, Golguier, que nos estamos a transformar em árvores.
- Temos que continuar a procurar mais coisas. Mais coisas. Um de nós tem que ir para a porta da árvore. Todo o tempo que aqui estivermos é precioso.
- Malka tem razão.
- Kail, vai para a porta e não faças barulho, nem andes a cortar folhas para fazeres botas, está bem?
- Sim Malka.

Encontraram centenas de fotografias e encontraram centenas de cartas. Ao fim de um tempo era possível reconstituir aquilo que havia sido a vida daquele homenzinho de barba bicuda e encaracolada. Saíram da árvore com muitas das coisas que encontraram debaixo dos chapéus e esconderam-se numa outra árvore. Passaram muito tempo a observar as pistas recolhidas.
- Então, que concluímos?
- Sabemos Golguier que tinha duas irmãs e um pai. Sabemos que era muito dedicado ao pai. Sabemo-lo por causa do conteúdo das cartas, embora não tenha tido tempo de as ler a todas. Sabemos que em todas as cartas concordava com as ordens do pai, porque as cartas do pai eram sempre no sentido de dar alguma ordem.
- Sobre o quê Claus?
- Sobre a casa, sobre a quinta, sobre o vinho, sobre os animais, sobre o que deveria fazer no caso de ele faltar. Seomac era obcecado com a ideia da morte. Era agricultor, muito agarrado à sua casa, à sua terra. Sabemos que era viúvo, que ficou viúvo novo. A mãe dos filhos chamava-se Aicretan e era muito citada nas cartas que as filhas trocavam.
- E por que razão é ele que guarda as cartas que as irmãs trocavam entre elas?
- Não sei Golguier.
- Mas sei que o pai voltou a casar, que teve outras mulheres, todas muito peculiares, a julgar pelas fotografias.
- Talvez isso explique alguma da tristeza que vemos nos olhos deste homenzinho quando ele canta aquela música. Talvez tenha saudades do pai, da família...
- Não sei Golguier. Ainda não vi tudo. Mas posso dizer que encontrei umas escrituras. Este homem deu uma casa a cada filho e deixou as filhas estudarem. Mas ele desabafava com o filho que elas eram demasiado independentes e rebeldes. As casas eram ao lado da dele e ele fazia questão que morassem ali todos, porque ele poderia vir a precisar. Escrevia isto em todas as cartas que mandava a este homenzinho. Mas não era muito presente.
- Por que concluis isso Claus?
- Porque há centenas de fotografias e nelas aparecem os filhos com as empregadas ou com as esposas dele. Ele quase nunca aparece.
- Mais alguma coisa?
- Sim, algumas cartas violentas trocadas entre eles. Coisas de família.
- Ou seja, nada que explique a razão de os nossos pés estarem a ficar presos.

Enquanto Golguier e Claus trocavam impressões, os outros, menos Kail, tentavam perceber a razão de os seus pés estarem estranhos, a razão do murmúrio da floresta, a razão de não conseguirem sair dali. De repente, Kail entra aos gritos na árvore onde estavam os outros.
- Olhem o que encontrei, olhem o que encontrei.
- Onde estiveste Kail?
- Fui à casa dele outra vez e encontrei isto. Vejam.
- É o quê. É o quê?
- É um pacto assinado entre Seomac e os deuses do Odem, Irtka.
- O que diz?
- A árvore grande é Seomac e todas as outras árvores são a família dele. Seomac transformou-os a todos em árvores. Menos o filho. Aci é o único que escapou, mas com uma condição.
- Qual Kail?
- Não pode sair da floresta, senão o pai transformá-lo-á em árvore também.
- Mas são milhares de árvores.
- Tudo o que tenha uma forma humana, ou parecida, entra aqui, mas já não sai. Assim diz o pacto.
- O que ganhou Seomac?
- Uma forma de vida eterna e estabilidade. Sempre acompanhado. Seomac tem medo dos afectos vividos na vida efémera, tem medo do amor, da morte e de estar só.
- E os deuses, o que ganham eles com isto?
- Domínio.

Os duendes estavam assustados. Como iriam sair dali? Como iriam percorrer o seu caminho?
Claus sentia que precisava salvar os seus companheiros daquela situação, mas não sabia sequer o que pensar. Sabia apenas que não fora feito para ser árvore, que preferiria morrer do que começar e acabar no mesmo sítio...

(Continua)
Leonor Paiva Watson