Um dia, lá no Caminho das Árvores Cansadas, um dos filhos de Aci adoeceu. A copa escureceu, no tronco apareceram buracos e o murmúrio habitual emudeceu. Aci tentou que as suas tesouras e palavras funcionassem, mas nada animou o filho. Dias passaram e os sintomas agravaram. O lamento das árvores ocupou todo o ar e no peito de Aci um nó apertado cresceu.
Viu-se obrigado a pedir a pai Seomac que o deixasse sair. Explicou que o filho estava doente, que precisava ir até à próxima povoação buscar uma raiz que colocada na raiz do filho poderia reanimá-lo; que não conhecia outra forma de ajudar o filho. “Não”. Seomac disse-lhe que não. Se tentasse sair do Caminho das Árvores Cansadas transformá-lo-ia em árvore. Apenas uma pessoa, até à data, tinha conseguido escapar ao medo que consumia Seomac.
Aci ficou desolado. Como poderia o pai negar-lhe aquilo? Decidiu lá voltar e voltou, uma e outra vez, e todas as que foram necessárias. Sempre a mesma resposta: "Não". Revoltou-se. Pela primeira vez virou-se contra o pai. Disse-lhe que não compreendia a sua desconfiança depois de tantos anos de cega lealdade, que não poderia aceitar que o pai lhe negasse o direito de curar o filho. Chamou-o de egoísta, de homem mau e prepotente e, por fim, ajoelhou-se a seus pés implorando pelo filho. Seomac não se condoeu. Tinha medo que Aci não voltasse. Está certo que também tinha medo que Aci se revoltasse. Que deixasse de sentir medo. Que saísse mesmo para nunca mais voltar. Mas não conseguiu contrariar a sua natureza e repetiu o "Não", oferecendo o neto em sacrifício.
O ar ficou irrespirável. O lamento das árvores ficou ensurdecedor. Cada vez mais alto, cada vez mais intenso, cada vez mais cavo, lá das profundezas de um qualquer invisível inferno. Sem intervalos. O Caminho das Árvores Cansadas transformou-se num só e ininterrupto lamento.
Foi esta, no entanto, a sorte de Aci. As árvores levaram o seu lamento até aos limites da floresta, onde, do lado de lá, vivia Ôn, uma das irmãs de Aci. Ôn nunca chegou a ser árvore. Saíra da sua casa natal visando descobrir mundos novos. Curiosidade deveras punida. Seomac disse-lhe que jamais a deixaria regressar, que para ele estava morta. Aprendeu a viver assim.Viajava, corria mundos e, quando cansada, regressava ao seu lugar, perto da floresta. Tinha uma vida tranquila, só a velhice lhe dera essa paz almejada desde sempre. Porque nem sempre foi assim. Passou anos a tentar perceber por que razão tinha o pai feito o pacto com os Deuses do Odem; a tentar perceber que fantasmas assaltavam e impediam aquela alma de crescer; a tentar perceber de onde vinha aquela necessidade de dividir para reinar; de submeter os outros ao seu jugo. Que medo era aquele da solidão? Não saberia Seomac que nascemos e morremos sós? Muitas, muitas perguntas e muitas culpas assaltaram Ôn ao longo dos anos. Mas o fardo da culpa, que Seomac tão bem sabia manipular e que paralisou os outros, impeliu-a para o Mundo. Dentro de si, sabia que não era errado querer conhecer, ultrapassar as barreiras do conhecido, questionar, questionar, questionar e contrariar e caminhar. Ôn não tinha qualquer receio do que lhe era estrangeiro. Não se imaginaria, aliás, sem o estrangeiro…
Ouvia agora o lamento das árvores mas não podia falar com elas. Sabia que este era um lamento diferente. Sabia que alguma coisa grave acontecera. Mas não podia contactar quem quer que fosse. Não tinha, nem nunca tivera, nenhum contacto com o que se passava dentro do Caminho das Árvores Cansadas. O que mais lhe custava, a única coisa que lhe custava, era não ter qualquer proximidade com Aci, irmão e grande companheiro de infância.
Dias e dias passaram e o lamentou intensificou-se. Muito além dos limites da floresta podia ser ouvido. O que poderia Ôn fazer? Decidiu que poderia permanecer o mais perto possível da floresta. O irmão poderia aparecer. Quem sabe se, desta vez, lhe oferecia uma palavra...
(Continua)
Leonor Paiva Watson