Sexta-feira, Agosto 14, 2009

IV- Claus aprende a ouvir

O dia acabava. Com o entardecer outra jornada começaria para os pequenos duendes. Mas, antes de acordarem, já Claus tinha decidido não prosseguir caminho. Antes voltar à árvore da regeneração que muito espantada ficou quando o viu.

- Então pequenino chapéu verde, o que vens tu aqui fazer? Julguei que tivesses ido.
- Não consigo tirar a toca da cabeça e tudo o que aqui se passa. - respondeu Claus.
- Tens pena dos pequenos seres da floresta, não é?
- Tenho. Isto é inconcebível.
- Chapéu verde, esconde-te junto a mim e deixa-me contar-te uma história.
- Está bem.
- Sabes, nem sempre foi assim. Há muito muito tempo, os Belkiers viviam na toca sozinhos fazendo as suas tarefas diárias sem incomodarem ninguém. Os pequenos seres da floresta eram seus vizinhos e todos conviviam pacificamente.
- Então como se chegou a isto?
- Começou de forma muito simples. Um dia, um dos chefes de uma das tribos dos pequenos seres da floresta veio até aqui pedir aos Belkiers que o deixassem ajudar nos trabalhos da toca, a troco de um pouco de áhua da regeneração. A árvore que o fornecia tinha morrido. Aliás, essa árvore fornecia uma série de tribos contíguas. Apenas os Belkiers tinham uma outra árvore da regeneração. Uma só deles. Sou eu, que já muito vi e ouvi. Mas, continuando, os Belkiers reuniram-se e acabaram por aceitar. Afinal, precisavam de alguém mais pequeno que fizesse os trabalhos que eles não conseguiam fazer devido à sua forte estrutura. Trabalhos mais minuciosos.
- E então?
- e então veio esse e, com o tempo, vieram muitos outros da sua tribo. Nos primeiros tempos, correu tudo muito bem. Trabalhavam todos em conjunto. Os Belkiers viam a sua toca crescer e os pequenos seres tinham toda a áhua que tanto precisavam. O tempo foi passando e outros chefes apareceram trazendo também as suas tribos. E também, durante muito tempo, todos se entenderam. Os Belkiers viam as suas construções crescerem de dia para dia e os pequenos seres da floresta tinham toda a áhua da regeneração de que tanto precisavam.
- O que aconteceu depois?
- Um dia, um dos Belkiers e um dos chefes dos pequenos seres da floresta desentenderam-se sobre a construção de uma das grutas verticais. O Belkier entendia que quanto mais amplo fosse o tecto que a identificava melhor, mas o pequeno chefe entendia que aquilo iria desabar e matar aqueles que ainda trabalhavam na parte interior da gruta. Entendia que o tecto teria que ser a última coisa a fazer e que ainda teriam que ser estudados os suportes para evitar aquele tecto tão grande de cair. Deu grande discussão. Tão grande que os outros Belkiers e os outros pequenos seres da floresta foram obrigados a intervir. Discutiram horas a fio e os Belkiers decidiram que iriam avançar com o telhado da gruta.
- E os pequenos seres?
- Decidiram que não voltariam mais ali.
- Mas voltaram...
- Não durante dias. E foram muitos dias. Só que lhes começou a faltar a áhua da regeneração, coisa sem a qual já não podem viver. Aos Belkiers faltavam os corpos pequeninos dos seres da floresta, que se entranhavam nas construções e faziam todos aqueles trabalhos de precisão tão necessários à cidade-toca.
- E então, e então?
- Então, um dia, um dos Belkiers foi até à pequena aldeia do chefe com que tinha discutido. Disse-lhe que lhe daria mais áhua da regeneração, se ele cedesse e fizesse o tecto tão grande quanto eles desejavam, se ele o terminasse o mais depressa possível e se o mais depressa possível passasse à grande ponte pela qual estavam tão ansiosos. O pequeno chefe disse que não, que aquilo iria desabar, que não poderia aceitar de maneira alguma aquele trato. Mas o Belkier ofereceu-lhe o triplo da áhua por dia e disse-lhe que ele passaria a ter um lugar no Conselho dos Belkiers, ajudando a tomar decisões.
- Claro que o pequeno chefe não aceitou...
- Não naquele dia, mas quando a áhua armazenada acabou e os seus seres começaram a ficar doentes decidiu ir falar com o Belkier. Acabou por ceder.
- E depois?
- E depois convenceu todos os pequenos seres da sua tribo a voltarem ao trabalho. Contou-lhes que, afinal, seria possível construir aquele tecto sem que ele desabasse. E eles foram. Com eles foram as outras tribos todas. Durante uns dias a cidade-toca foi crescendo e o final do dia era compensado com áhua da regeneração. Muita áhua da regeneração. Até que o tecto quase acabado desabou, matando muitos dos pequenos seres que trabalhavam no interior da gruta.
- E depois?
- E depois construíram-se teorias e justificações. Os pequenos seres não queriam regressar, mas a verdade é que já não viviam sem a áhua da regeneração. Então continuaram. E depois um deles já fazia parte do Conselho dos Belkiers. Prometia protecção. Com o tempo, chapéu verde, mais pequenos seres foram convidados para o Conselho. As regalias eram boas. Podiam, por exemplo, habitar uma gruta já concluída e não eram obrigados a trabalho braçal. Apenas controlavam o trabalho dos pequenos seres.
- E os Belkiers?
- Os Belkiers perceberam que não tinham que fazer muito. Tinham quem trabalhasse por eles e quem controlasse esse mesmo trabalho. Só precisavam controlar os controleiros e assim estava tudo sob controlo. E esta parte era fácil: mais um lugar no Conselho, mais áhua da regeneração.
- Coitadinhos dos seres da floresta.
- Não tenhas tanta pena.
- Como podes dizer isso?
- Eles nada fizeram para saírem daqui.
- Ah?
-Os pequenos seres são em maior quantidade. E deles depende todo o trabalho, todo o resultado final, se não fossem eles nada disto seria possível...
- Mas eles precisam da áhua da regeneração.
- Eles precisam tanto da áhua como os Belkiers precisam deles. Tiveram oportunidade para saírem em bloco da toca, atrasarem toda a construção, evidenciarem uma posição de igualdade.
- Quantos dias, coitadinhos, aguentariam sem áhua?
- E quantos dias, chapéu verde, aguentariam os Belkiers sem eles?
- O que me dizes?
- Digo-te que no coração de cada um deles vivia a esperança de ir parar ao Conselho dos Belkiers, em cada um a secreta esperança de habitar uma gruta da toca e controlar o trabalho alheio. E em cada um, ao mesmo tempo, o medo de perder o pouco que tinham. Em cada um a vaidade e o medo. Houve oportunidades, houve momentos em que poderiam ter virado a situação ao contrário, mas sistematicamente optaram pelo inverso.
- Dizes-me que eles são culpados por estarem agrilhoados, por trabalharem com correntes nos pés, por serem escravos?
- Sim, são culpados.
- Não consigo compreender.
- Então ouve. Mas ouve.
- Sim...
- Outros tectos desabaram, outras discussões houveram, outras negociações se sucederam. E tudo sempre se recompôs. Sempre do mesmo modo. Mas um dia desabou a ponte que os Belkiers tanto queriam. Morreram duas tribos inteiras e quatro membros do Conselho.
- Belkiers?
- Claro que não. Dos que andavam no terreno. Aí sim, foi grave. Juntaram-se todos, atacaram os Belkiers. Falaram mesmo em abandonar completamente as grutas, a áhua, todas as regalias, tudo por tempo indeterminado.
- Que aconteceu?
- No início todos disseram que sim, que era o justo e a única saída. A única forma de obrigar a negociações que implicariam decisões partilhadas e a protecção dos pequenos trabalhadores. Mas depois veio a conversa de um que não podia prescindir da áhua porque a família estava doente, a de um outro que já tinha cedido a sua toquita na floresta e que não poderia agora ficar sem a gruta conquistada na toca dos Belkiers, ainda a de um outro que argumentava que abandonar o Conselho seria abandonar a vigilância... Enfim, cada um vestiu o medo com a cor que quis. Alguns foram para casa, é certo. Mas outros não. Os que não foram asseguraram aos Belkiers o trabalho que era necessário. Com isto, os Belkiers sentiram que não tinham por que negociar e, com isto, os pequenos seres que tinham partido acabaram por regressar.
- E então?
- E então, os Belkiers, que eram burros mas não infinitamente burros, perceberam que os seres da floresta tinham a mais conveniente de todas as fraquezas: a cobardia. E que ser em maior número não era uma vantagem.
- Sendo assim, para quê dar áhua?
- Exactamente. Os Belkiers começaram a distratar os pequenos seres. Deixaram de dar três ôoms de áhua da regeneração por dia, para darem dois e depois um. Hoje, só têm direito a meio. E meio porque precisam mesmo daquilo para viverem. E não os deixam sair daqui para aproveitarem as horas que eles estariam nas suas casas e em família.
- E os grilhões? Eles não têm energia para fugir...
- Fazem-no porque podem.
- Mas eu continuo a ter pena deles.
- Haverá entre eles muitos inocentes, muitos que teriam tido a coragem de fazer diferente. Mas a maioria não. Ou tudo seria diferente.
- Custa tanto a acreditar.
- Foram muitas as conversas e pequenas reuniões que apanhei aqui, debaixo dos meus ramos. Pequenas conspirações, pequenos planos, pequenas traições. Todos queriam um lugar, todos queriam almoçar com os Belkiers. Os Belkiers são o que são, os outros queriam ser como eles. A verdade é que os pequenos seres caminharam a passos largos para aqui.
- Ah?
- Acho que tens que ir embora, chapéu verde. Quando fizeres o regresso, visita-me.
- Não, eu vou para Urukk, onde está todo o conhecimento duende. De lá não sairei mais...
- Todo o conhecimento?
- Sim, toda a sabedoria.
- E serão a mesma coisa?
- Ah?
- Não te esqueças do caminho...

(Continua)

Leonor Paiva Watson

Segunda-feira, Julho 13, 2009

III - Claus e a primeira grande traição

Assim que a madrugada chegou, Golguier partiu em direcção à cela de kail...

Tudo teria que ser muito rápido, pensou Golguier. Teria que salvar Kail, levá-lo até aos outros e convencê-los a fugir imediatamente. Não haveria tempo para mais nada. Eram em menor número que os Belkiers, tinham menos tamanho, menos instrumentos para uma luta e não conheciam o território. Tudo estava a favor dos Belkiers.

Mas Golguier sabia que tinha prometido a Claus ajudá-lo a salvar os outros seres da floresta. O que poderia ele fazer para contornar essa promessa que ele sabia ser a destruição de todos?

Corria o mais que podia em direcção à cela de Kail. Todos dormiam, todos ressonavam, um enorme ronco era a toca dos Belkiers naquela hora. E, então, submerso em pensamentos que viajavam entre a culpa e a responsabilidade, Golguier decidiu parar, tirar todos os planos da toca dos Belkiers que tinha debaixo do chapéu e escondê-los. Escondeu-os ao lado de uma árvore onde os muitos dos seres da floresta explorados bebiam áhua quando cansados. Era a árvore da vida. Da vida possível naquele antro de escravidão.

Mais leve no corpo, mas não necessariamente na consciência, chegou à cela de Kail.

-Anda, anda daí Kail. Vou abrir-te isto e vais correr atrás de mim o mais depressa que puderes e, por favor Kail, não tropeces. As nossas vidas estão nas tuas mãos Kail, nos teus pés quero dizer.

Correrem os dois muito e Kail não tropeçou, nenhum Belkier acordou, nenhum vento se zangou.
Chegados à cela onde estavam os outros, Golguier e Kail acordaram-nos. Imediatamente saíram todos da cela, dirigindo-se para um lugar mais escondido.

- Então, encontraste os planos da toca? - perguntou Claus.
- Claus, temos que fugir daqui. Há milhares de Belkiers lá fora. Não temos muito tempo, meu amigo. Daqui a pouco, eles vão acordar, dar pela nossa falta e começar as buscas.
- Golguier, temos que fazer alguma coisa por estes seres. Viste como trabalham, com grilhões nas pernas para não se afastarem muito? Viste como tratam os mais pequenos? Os dedos deles servem para moldar o rococó das construções deles. Viste? Temos que fazer alguma coisa. Golguier, dá-me os planos que encontraste.
- Claus, haverá sempre escravos no Mundo.
- E que diabo sabes tu disso, Golguier?
- Sei o que o nosso ancião dizia e ele dizia que o Mundo teria sempre escravos, presas e predadores.
- O ancião é parvo. Dá-me os planos Golguier.

Um grande silêncio se fez e Golguier respondeu:

- Eu não encontrei os planos Claus. Desculpa.
- Tu não encontraste os planos?
- Não.
- Estás a mentir?
- Achas que eu te mentiria Claus?

Claus não respondeu. Não tinha como provar aquilo que dentro de si era uma certeza. Golguier, o Bondoso, traiu-o. Mas não podia fazer grande coisa. Convenceu-se, portanto, de que estava a julgar mal Golguier, de que ele, Claus, é que era desconfiado.

- Vá, vamos, por favor, vamos.
- E vamos em que direcção?
- Em frente. Encontraremos uma árvore, lá poderemos tomar a áhua da regeneração e seguir caminho. Muito perto há uma saída. Dentro da floresta já será mais difícil para os Belkiers apanharem-nos.
- Golguier, com sabes tu que há uma saída perto dessa tal árvore?
- Claus, não desconfies de mim. Ouvi uma conversa entre eles. Um dizia ao outro que tinham que ter mais cuidado com aquela saída porque era muito perto da nova área de trabalhos.

Tal e qual Golgueir disse, eles fizeram. Malka, Mirkles, Irtka, Leilyii seguiram Golguier e Claus. Onde ia Kail, o distraído? Às costas de Leilyii, o aventureiro. Correram até à árvore da vida e lá beberam da áhua da regeneração.

Tinham que ir embora. O tempo começava a escassear e havia ainda o risco de chover. Se chovesse, a poeira transformar-se-ia em lama e não haveria mais hipótese de saírem dali enquanto os Belkiers dormiam. Claus deixou os seus amiguinhos irem e ficou um pouco para trás.

- Então, pequeno chapéu verde, porque estás triste?
- Não sei.
- Vai, vai, cumpre o teu destino. O teus amiguinhos estão à tua espera. Tens aí um pequeno ôom?
- Sim.
- Então, coloca lá um pouco da minha áhua e bebe, sempre que te sentires como agora.
- Obrigada.

Claus partiu, devagar. Entretanto, ouviu uns pequenos passos e escondeu-se, assustado, atrás de um monte amarelo de pó, de onde viu Malka. Malka estava a escavar perto da árvore da regeneração, onde acabou por encontrar os planos que Golguier escondera... Claus fingiu que nada viu; e Malka, com o seu bom faro, não sentiu Claus. Estava demasiado inebriado com a sua descoberta. Escondeu os planos no chapéu e foi ter com os outros.

Encontraram a saída e depois de uma longa madrugada conseguiram, finalmente, entrar na floresta. Mas continuaram a andar. Andaram até as forças esgotarem. Quando o sol começou a raiar, decidiram dormir, para retomarem depois a sua viagem até aos Urukk.

Todos ficaram muito perto uns dos outros. Menos Claus. Claus escolheu uma folha mais distante, onde chorou até mais um dia começar...

(Continua)

Leonor Paiva Watson

Domingo, Junho 28, 2009

II - O Claus encontra os Belkiers


Começaram a viagem e...

Claus acreditava, do fundo do seu coraçãozinho verde de duende, que tudo correria bem. Olhava os seus amiguinhos com orgulho e pensava que eram seis destemidos. Sentia-se forte, invencível, leve e dono da sua vida. Pouco lhe importava se as folhas o incomodavam, se as ervas o arranhavam, se a resina das árvores se lhe colava ao franzino corpo, se as chuvas intensas chegavam quando menos se esperava, se a humidade se se entranhava, se a água escasseava. Caminhavam juntos, paravam juntos, analisavam mapas juntos, definiam caminhos juntos, comiam juntos. Era isso que importava. Contavam histórias, liam as cábulas das poções mágicas para as memorizar, magicavam em como resolver eventuais problemas. Sentiam-se preparados. E à medida que os dias se sobrepunham uns nos outros, mais preparados se sentiam para conhecer o Mundo.

Um dia, já muito distante da partida e ainda muito longe do destino, Kail, distraído e sempre a tropeçar nos próprios pés, caiu num enorme fosso. Teria sido enorme mesmo para um humano... Horas e horas à volta do buraco e nenhuma das cordas de Golguier o conseguia resgatar, nenhum plano de salvamento foi eficaz, nenhuma poção mágica surtia efeito. Apaziguava a frustração destes amiguinhos as refeições quentes de Mirkles.

Acabou esse dia e com a noite chegou o silêncio. Leilyii não tinha mais aventuras para contar a Kail que desesperava em dores, lá em baixo. Irtka não sabia o que decidir, Mirkles adormeceu de cansaço. Apenas Malka não conseguia estar calado e repetia, incansavelmente, que estava a pressentir coisa ruim no caminho. Ficaram todos sentados à volta do grande buraco onde estava Kail. Acabaram a adormecer. Muito cansadinhos.

O dia acordou com um grupo de gigantes barrigudos a rodearem os sete amiguinhos. Eram os Belkiers. Claus foi o primeiro a abrir os olhos. Fechou-os e abriu-os outra vez, na esperança de se ter enganado. Voltou a fechá-los e a abri-los. E lá estavam os barrigudos, cheios de pêlos e caras zangadas.

Claus sentiu a boca seca, não conseguia acordar os outros, não conseguia dizer ou fazer nada. Estava com tanto medo que as pernas lhe tremiam sem autorização. Por sua vez, os barrigudos conferenciavam sobre o que fazer com aqueles minúsculos seres. Não serviam propriamente para comer, afinal, cabiam-lhes na cova de um dente. Também não serviriam para trabalhar. Pelo menos, aparentemente. Mas se caíram no buraco é porque eram inimigos, pensavam, e, portanto, teriam que levá-los. Decidiriam depois a sua utilidade.

A toca dos Belkiers era enorme. Edificavam-se construções subterrâneas com o trabalho escravo de muitos outros seres da floresta. A Kail colocaram-no num cela sozinho, perto de um barrigudo sonolento, mas tão maior do que os outros que provocava pavor. A Claus e aos outros colocaram-nos juntos, a olhar para os que trabalhavam nas construções.

Durante dias, Claus não conseguiu dizer uma palavra. Mal comia as refeições trazidas pelos barrigudos. Não conseguia raciocinar sobre o que diziam os seus amigos e não conseguia parar de pensar em Kail, sozinho ao lado de um barrigudo mais-do-que-gigante, Bigbelkier. Lembrava-se do ancião da sua comunidade que sempre dizia para não acreditarem em tudo o que vinha nas cartas das outras comunidades duendes. Dizia o velho duende, já com as barbas azuladas, que o jardim dos outros parece sempre mais bonito de que o nosso, mas que o Mundo, a soma de todos os jardins, era um portentoso cardo.

Ao quinto dia, porém, Claus abriu a palavra e pediu a todos os amiguinhos que o rodeassem. Tinha um plano para salvar Kail.

Irtka fingir-se-ia de doente, simulando uma maleita cujo sintoma principal era gritar; e Malka chamaria o chefe dos barrigudos - um barrigudo muito comilão chamado Milkbelkier - para pedir ajuda a acabar a persuadi-lo a libertá-los. Caso não desse certo, Irtka continuaria com a mesma encenação; e Malka frente-a-frente com Milbelkier, novamente, oferecer-lhe-ia uma iguaria de Mirkles que o colocaria a dormir. Quando estivesse sem ânimo, retirar-lhe-iam as chaves que sempre usava ao pescoço, abririam aquela cela, e Golguier entraria no seu bolso para ter depois acesso a todos os planos na sua toca. Teria apenas que ter muito cuidado com o seu chapéu pontiagudo. Não poderia ser visto.

A ideia de Claus não era salvar apenas Kail, era salvar todos os seres da floresta que estavam a ser explorados pelos barrigudos. Mas os seus amiguinhos não concordaram com tudo. Entenderam que, uma vez no bolso de Milkbelkier, Golguier iria tentar descobrir todos os planos, mas preocupar-se fundamentalmente com a libertação de Kail. Quando estivessem todos juntos outra vez, esconder-se-iam e pensariam em como resolver o problema dos outros seres da floresta. Claus acabou por consentir, mas muito contrariado.

Os gritos lancinantes de Irtka e os dotes persuasivos de Malka não resultaram. Milkbelkier não se deixou convencer, mas sabia que alguma coisa tinha que fazer para acabar com aquela gritaria muito incomodativa. Tanto ruído constituia uma má influência na produtividade dos seres da floresta explorados. Resolveu, então,voltar uma segunda vez para ouvir as eventuais soluções de Malka. Após uns minutos de conversa, Malka ofereceu-lhe a tal iguaria de Mirkles. Tal como previra Claus, o comilão caiu redondo no chão. Arrancou-lhe as chaves que trazia no pescoço e abriu a porta da cela, deixando Golguier alojar-se no bolso do inimigo.

O monstro foi imediatamente levado pelos outros monstros para os seus aposentos. Lá deitaram-no e continuou a ressonar. Golguier teve tempo de sobra para descobrir todos os planos impressos em folhas que pareciam de árvore da borracha e teve tempo para descobrir todas as outras chaves que Milkbelkier não carregava no pescoço. O pior seria sair dali, ir até à cela de Kail e passar pelo barrigudo Bigbelkier sem ser visto.

Os outros, na cela, coçavam as costas com a ponta dos seus chapéus pontiagudos. Estavam tão nervosos que até as suas perninhas verdes mudavam de cor. Sorte por ninguém dar pela falta de Golguier. O trabalho e a poeira eram tão intensos que ninguém tinha tempo para ver grande coisa.

Sozinho, Golguier decidiu que só debandava dos aposentos do comilão Milkbelkier durante a madrugada. Tinha percebido naqueles dias que toda a gente ali dormia profundamente.

Assim que a madrugada chegou, Golguier partiu em direcção à cela de Kail...

(Continua)

Leonor Paiva Watson

Quarta-feira, Junho 24, 2009

I - Claus, o pequeno duende (parabéns, Natércia)


Era um pequeno duende de olhos enormes, azuis e espertos.

Alegre e traquinas, o Claus cresceu no recanto mais inóspito da sua floresta. Não havia um lago, um espaço mais aberto, uma sociedade de humanos por perto, apenas florestação densa, apertada, alta. A sua pequena estatura não o ajudava, tampouco aos seus amiguinhos, alguns já com família. Menos ainda ajudavam as missivas vindas de outras comunidades duendes que davam conta de sítios maravilhosos onde os chapéus dos seus habitantes cirandavam o dia todo em trabalhos de embelezamento doméstico e feitiços grandiosos para colocar o universo no seu lugar. Até os que viviam nas minas pareciam viver melhor.

Os seus amiguinhos foram ficando rezingões, um pouco amargos, um pouco desiludidos. Mas o Claus não. O Claus tinha uns olhos azuis tão grandes que parecia que via acima da vegetação que o cobria, sabia que havia mais Mundo, sítios onde ir, outros pequenos duendes e engraçados humanos para conhecer. Às vezes, à noite, quando todos paravam de ralhar uns com os outros, Claus ia até um cantinho muito seu, trepava para uma folha com ligação directa à luz das estrelas e ficava lá, de perna verde trançada, a sonhar um glorioso futuro. Acreditava que viria a ser um duende muito importante.

Uma noite, na mesma folha, decidiu que iria convencer todos os seus amiguinhos a sairem dali, a iniciarem uma viagem que os levaria, nada mais nada menos, à comunidade de duendes mais influente, aquela de onde tinham saído todos os livros de magia, toda a sabedoria, todos os poderes que havia permitido a estes pequeninos seres viverem até aos dias de hoje. Até à comunidade dos Urukk.

Nessa noite saltou da folha com a força de quem tinha encontrado uma missão e resolveu acordar toda a gente. Num ápice, estavam todos reunidos, com ar ensonado e zangado e chapéus amarrotados a ouvir Claus. Claus colocou a voz, afirmou, explicou, protestou, argumentou, mas nos olhos dos seus ouvintes só via que eles não podiam crer que tinham interrompido os seus sonhos para ouvirem tanta babuseira. Claus insistiu. Tanto que a comunidade ensonada e desejosa de voltar às suas casas decidiu fazer um voto de silêncio por três dias para pensarem no que ele propôs.

Por três dias não se ouviram os lamentos, os ralhetes, a ponta dos seus chapéus a ensaiarem poções mágicas. Só as folhas a baterem umas nas outras, competindo por uma nesga de sol. Às vezes ouvia-se um suspiro. Claus estava nervoso, nada sabia sobre como começar aquela viagem, como chegar aos Urukk, mas sabia que haveria de lá chegar. Nada nele dizia "não".

Três dias volvidos, todos se reuniram outra vez. Aquilo que parecera ser uma ideia sem pernas para andar, transformou-se num quebra-cabeças para a maioria deles e todos se mostravam rendidos à perspectiva de partir,sair daquele lugar húmido, quente e muito abafado. Mas, por maioria, decidiram que não o fariam. As desculpas foram variadas. Apenas seis optaram por Claus. Partiriam assim que o dia nascesse, com as suas perninhas verdes e os seus chapéus pontiagudos.

Raiou o Sol e Claus esperou pelos seus seis amiguinhos: Golguier, Malkam, Mirkles, Irtka, Leilyii e Kail.

Golguier trazia uma bússsola, pequenas cordas, cábulas com todas as poções que os pudessem defender das adversidades do caminho e mapas com as melhores rotas. Não esqueceu os planos de salvamento, caso algum dos seus amigos ficasse preso numa armadilha florestal. Tudo muito organizado, tudo muito calculado. Sempre racional, inteligente e generoso este Golguier. O Malka trazia a esperteza, o faro irrepreensível, farejava o perigo à distância. Trazia ainda o seu poder de negociação, para o caso de uma necessidade. Mirkles, a duenda, presentearia o grupo com maravilhosas comidas já preparadas, com a sua capacidade de análise e o seu sentido de justiça e Irtka, a outra duenda, com a capacidade de decidir, no tempo certo. O Leilyii trazia o gosto pela aventura e pelo desconhecido. E Kail chegou atrasado,a dizer "sim" a tudo, a não ouvir nada, completamente distraído, a tropeçar nos próprios pés.

Começaram a viagem e...

(Continua)

Leonor Paiva Watson

Segunda-feira, Março 16, 2009

A data

Porto, 16 de Março de 1980. Há 29 anos.

Domingo, Março 08, 2009

Conversa fiada...

A finalidade do Homem também eu julguei ser a sua progressiva identificação com o Absoluto. Mas, como pode o Homem - imbuído na resolução do ego, primeiro; e convicto na travessia das ilusões, desilusões e humilhações económicas, sociais e pessoais, depois - identificar-se com o Absoluto? Quanta abnegação seria necessária para chegarmos ao Silêncio de que somos feitos? Para percebermos, enfim, o nosso tão invisível quanto insignificante lugar no Todo de que somos parte... Quem pode percebê-lo se os dias da pequenez são feitos de ruído?

Quinta-feira, Março 05, 2009

Cada um sabe o que deve...

Reza a História que Diógenes, o cínico, recebeu um dia a visita de Alexandre Magno e que este lhe perguntou se ele tinha algum desejo, dizendo-lhe que, caso tivesse, aquele seria satisfeito. Reza ainda a História que Diógenes respondeu: “Sim, desejo que te afastes da frente do Sol”.