IV- Claus aprende a ouvir
O dia acabava. Com o entardecer outra jornada começaria para os pequenos duendes. Mas, antes de acordarem, já Claus tinha decidido não prosseguir caminho. Antes voltar à árvore da regeneração que muito espantada ficou quando o viu.
- Então pequenino chapéu verde, o que vens tu aqui fazer? Julguei que tivesses ido.
- Não consigo tirar a toca da cabeça e tudo o que aqui se passa. - respondeu Claus.
- Tens pena dos pequenos seres da floresta, não é?
- Tenho. Isto é inconcebível.
- Chapéu verde, esconde-te junto a mim e deixa-me contar-te uma história.
- Está bem.
- Sabes, nem sempre foi assim. Há muito muito tempo, os Belkiers viviam na toca sozinhos fazendo as suas tarefas diárias sem incomodarem ninguém. Os pequenos seres da floresta eram seus vizinhos e todos conviviam pacificamente.
- Então como se chegou a isto?
- Começou de forma muito simples. Um dia, um dos chefes de uma das tribos dos pequenos seres da floresta veio até aqui pedir aos Belkiers que o deixassem ajudar nos trabalhos da toca, a troco de um pouco de áhua da regeneração. A árvore que o fornecia tinha morrido. Aliás, essa árvore fornecia uma série de tribos contíguas. Apenas os Belkiers tinham uma outra árvore da regeneração. Uma só deles. Sou eu, que já muito vi e ouvi. Mas, continuando, os Belkiers reuniram-se e acabaram por aceitar. Afinal, precisavam de alguém mais pequeno que fizesse os trabalhos que eles não conseguiam fazer devido à sua forte estrutura. Trabalhos mais minuciosos.
- E então?
- e então veio esse e, com o tempo, vieram muitos outros da sua tribo. Nos primeiros tempos, correu tudo muito bem. Trabalhavam todos em conjunto. Os Belkiers viam a sua toca crescer e os pequenos seres tinham toda a áhua que tanto precisavam. O tempo foi passando e outros chefes apareceram trazendo também as suas tribos. E também, durante muito tempo, todos se entenderam. Os Belkiers viam as suas construções crescerem de dia para dia e os pequenos seres da floresta tinham toda a áhua da regeneração de que tanto precisavam.
- O que aconteceu depois?
- Um dia, um dos Belkiers e um dos chefes dos pequenos seres da floresta desentenderam-se sobre a construção de uma das grutas verticais. O Belkier entendia que quanto mais amplo fosse o tecto que a identificava melhor, mas o pequeno chefe entendia que aquilo iria desabar e matar aqueles que ainda trabalhavam na parte interior da gruta. Entendia que o tecto teria que ser a última coisa a fazer e que ainda teriam que ser estudados os suportes para evitar aquele tecto tão grande de cair. Deu grande discussão. Tão grande que os outros Belkiers e os outros pequenos seres da floresta foram obrigados a intervir. Discutiram horas a fio e os Belkiers decidiram que iriam avançar com o telhado da gruta.
- E os pequenos seres?
- Decidiram que não voltariam mais ali.
- Mas voltaram...
- Não durante dias. E foram muitos dias. Só que lhes começou a faltar a áhua da regeneração, coisa sem a qual já não podem viver. Aos Belkiers faltavam os corpos pequeninos dos seres da floresta, que se entranhavam nas construções e faziam todos aqueles trabalhos de precisão tão necessários à cidade-toca.
- E então, e então?
- Então, um dia, um dos Belkiers foi até à pequena aldeia do chefe com que tinha discutido. Disse-lhe que lhe daria mais áhua da regeneração, se ele cedesse e fizesse o tecto tão grande quanto eles desejavam, se ele o terminasse o mais depressa possível e se o mais depressa possível passasse à grande ponte pela qual estavam tão ansiosos. O pequeno chefe disse que não, que aquilo iria desabar, que não poderia aceitar de maneira alguma aquele trato. Mas o Belkier ofereceu-lhe o triplo da áhua por dia e disse-lhe que ele passaria a ter um lugar no Conselho dos Belkiers, ajudando a tomar decisões.
- Claro que o pequeno chefe não aceitou...
- Não naquele dia, mas quando a áhua armazenada acabou e os seus seres começaram a ficar doentes decidiu ir falar com o Belkier. Acabou por ceder.
- E depois?
- E depois convenceu todos os pequenos seres da sua tribo a voltarem ao trabalho. Contou-lhes que, afinal, seria possível construir aquele tecto sem que ele desabasse. E eles foram. Com eles foram as outras tribos todas. Durante uns dias a cidade-toca foi crescendo e o final do dia era compensado com áhua da regeneração. Muita áhua da regeneração. Até que o tecto quase acabado desabou, matando muitos dos pequenos seres que trabalhavam no interior da gruta.
- E depois?
- E depois construíram-se teorias e justificações. Os pequenos seres não queriam regressar, mas a verdade é que já não viviam sem a áhua da regeneração. Então continuaram. E depois um deles já fazia parte do Conselho dos Belkiers. Prometia protecção. Com o tempo, chapéu verde, mais pequenos seres foram convidados para o Conselho. As regalias eram boas. Podiam, por exemplo, habitar uma gruta já concluída e não eram obrigados a trabalho braçal. Apenas controlavam o trabalho dos pequenos seres.
- E os Belkiers?
- Os Belkiers perceberam que não tinham que fazer muito. Tinham quem trabalhasse por eles e quem controlasse esse mesmo trabalho. Só precisavam controlar os controleiros e assim estava tudo sob controlo. E esta parte era fácil: mais um lugar no Conselho, mais áhua da regeneração.
- Coitadinhos dos seres da floresta.
- Não tenhas tanta pena.
- Como podes dizer isso?
- Eles nada fizeram para saírem daqui.
- Ah?
-Os pequenos seres são em maior quantidade. E deles depende todo o trabalho, todo o resultado final, se não fossem eles nada disto seria possível...
- Mas eles precisam da áhua da regeneração.
- Eles precisam tanto da áhua como os Belkiers precisam deles. Tiveram oportunidade para saírem em bloco da toca, atrasarem toda a construção, evidenciarem uma posição de igualdade.
- Quantos dias, coitadinhos, aguentariam sem áhua?
- E quantos dias, chapéu verde, aguentariam os Belkiers sem eles?
- O que me dizes?
- Digo-te que no coração de cada um deles vivia a esperança de ir parar ao Conselho dos Belkiers, em cada um a secreta esperança de habitar uma gruta da toca e controlar o trabalho alheio. E em cada um, ao mesmo tempo, o medo de perder o pouco que tinham. Em cada um a vaidade e o medo. Houve oportunidades, houve momentos em que poderiam ter virado a situação ao contrário, mas sistematicamente optaram pelo inverso.
- Dizes-me que eles são culpados por estarem agrilhoados, por trabalharem com correntes nos pés, por serem escravos?
- Sim, são culpados.
- Não consigo compreender.
- Então ouve. Mas ouve.
- Sim...
- Outros tectos desabaram, outras discussões houveram, outras negociações se sucederam. E tudo sempre se recompôs. Sempre do mesmo modo. Mas um dia desabou a ponte que os Belkiers tanto queriam. Morreram duas tribos inteiras e quatro membros do Conselho.
- Belkiers?
- Claro que não. Dos que andavam no terreno. Aí sim, foi grave. Juntaram-se todos, atacaram os Belkiers. Falaram mesmo em abandonar completamente as grutas, a áhua, todas as regalias, tudo por tempo indeterminado.
- Que aconteceu?
- No início todos disseram que sim, que era o justo e a única saída. A única forma de obrigar a negociações que implicariam decisões partilhadas e a protecção dos pequenos trabalhadores. Mas depois veio a conversa de um que não podia prescindir da áhua porque a família estava doente, a de um outro que já tinha cedido a sua toquita na floresta e que não poderia agora ficar sem a gruta conquistada na toca dos Belkiers, ainda a de um outro que argumentava que abandonar o Conselho seria abandonar a vigilância... Enfim, cada um vestiu o medo com a cor que quis. Alguns foram para casa, é certo. Mas outros não. Os que não foram asseguraram aos Belkiers o trabalho que era necessário. Com isto, os Belkiers sentiram que não tinham por que negociar e, com isto, os pequenos seres que tinham partido acabaram por regressar.
- E então?
- E então, os Belkiers, que eram burros mas não infinitamente burros, perceberam que os seres da floresta tinham a mais conveniente de todas as fraquezas: a cobardia. E que ser em maior número não era uma vantagem.
- Sendo assim, para quê dar áhua?
- Exactamente. Os Belkiers começaram a distratar os pequenos seres. Deixaram de dar três ôoms de áhua da regeneração por dia, para darem dois e depois um. Hoje, só têm direito a meio. E meio porque precisam mesmo daquilo para viverem. E não os deixam sair daqui para aproveitarem as horas que eles estariam nas suas casas e em família.
- E os grilhões? Eles não têm energia para fugir...
- Fazem-no porque podem.
- Mas eu continuo a ter pena deles.
- Haverá entre eles muitos inocentes, muitos que teriam tido a coragem de fazer diferente. Mas a maioria não. Ou tudo seria diferente.
- Custa tanto a acreditar.
- Foram muitas as conversas e pequenas reuniões que apanhei aqui, debaixo dos meus ramos. Pequenas conspirações, pequenos planos, pequenas traições. Todos queriam um lugar, todos queriam almoçar com os Belkiers. Os Belkiers são o que são, os outros queriam ser como eles. A verdade é que os pequenos seres caminharam a passos largos para aqui.
- Ah?
- Acho que tens que ir embora, chapéu verde. Quando fizeres o regresso, visita-me.
- Não, eu vou para Urukk, onde está todo o conhecimento duende. De lá não sairei mais...
- Todo o conhecimento?
- Sim, toda a sabedoria.
- E serão a mesma coisa?
- Ah?
- Não te esqueças do caminho...
(Continua)
Leonor Paiva Watson


