sábado, fevereiro 18, 2017

Ascensão 3.

A minha vida no colégio foi fácil. Bastava estar do lado dos que aplicavam a lei do mais forte. Andam em matilha e não se importam de engrossar fileiras. Eu era forte fisicamente, tinha boas notas, era bom no soco, no talher e na argumentação, tinha um ar certinho para agradar os papás dos amiguinhos e das amiguinhas, logo, estava à altura. No partido, igual. Pelo caminho, ensinei Matemática a muito burro e colei muitos cartazes. Tudo pela Democracia. Por um Mundo mais justo.

Aos 17 anos já sabia com quem haveria de casar e não me poupei a esforços. Casamento é um negócio e a sua pedra basilar é a família de quem casamos. Amor é distração para os pobres. Resumidamente, estava assim combinado, eu seria o solícito por uns anos e, assim, paulatinamente, um por um, removeria os obstáculos até chegar... bom, até chegar aqui.

Tive obstáculos e traições. Traição é, aliás, palavra de ordem. Mas a maioria dos traidores são aborrecidos, conservam um pouco de moral. Uma moral um bocadinho judaico-cristã, com um bocadinho de culpa, com um bocadinho de arrependimento e com muitas justificações e algumas fatais distracções. Eu dessa moral não tenho nada. A minha abrevia-se nisto: Eu tenho um caminho para fazer e faço-o. 

Leva-me isto para a triste existência de um sujeito do colégio que tinha ciúmes da minha relação com o Raul e não perdia uma oportunidade para me tentar rebaixar, afinal, o meu pai era o pedreiro. Troçava de mim e ria desbragadamente das suas próprias piadolas. Um dia, quando saía de um dos mais importantes bailes do colégio, levou uma tareia de quatro gajos e, quando já estava no chão, apareci para estender-lhe a mão.

O primeiro murro foi no maxilar esquerdo, que ouvi estalar. Como a minha esquerda não é lá essas coisas, insisti na direita, com mais uma punhada ao mesmo maxilar, que se desfez num jorro de sangue. Como aquilo de que eu gostava mesmo era de facas, das de ponta-e-mola, por causa do som que fazem quando estão prestes a esclarecer ideias, lá pus a minha direita a trabalhar outra vez, desta feita num perfeito "L" marcado na sua face esquerda. Profundo que chegasse, porque eu sou um tipo profundo. Depois voltei para festa e acabei a noite a foder com a namorada dele, irmã do Raul, a mulher com quem queria casar e com quem casei.

Bati-lhe porque tinha ressentimento pelo facto de me gozar? Não. Não me interpretem mal. Ressentimento é coisa de mulherzinha, é perda de tempo, e ele era um idiota, um tipo inseguro que viu em mim uma ameaça, que me invejava, que invejava o meu porte, a natural distância que eu impunha, a minha inteligência, a minha cultura, a minha boa disposição, o quanto os outros gostavam de mim. Os seus confrontos eram para mim um elogio, eram o certificado da sua menoridade. Sovei-o para que percebesse uma coisa: eu era capaz de tudo.

E isso mesmo entendeu quando, já capaz de falar, me acusou do sucedido e eu mostrei-me tão surpreendido e, ao mesmo tempo, tão compreensivo com a sua confusão mental, decorrente do trauma, que todo o colégio mostrou gratidão pela generosidade com que estava a lidar com o assunto. Além de que muitos podiam testemunhar a sua antiga implicância comigo, e não faltaram ainda os que juraram que, naquela noite, me viram a dançar... até cair, claro.

Sim, sem enganos ou quaisquer crises de identidade, acabei o colégio aos dezoito. Direito aos vinte e três, ladeado pelos mesmos quatro companheiros. Aos vinte e quatro anos estagiava, com Pedro, na Castro Portela, onde aos trinta e dois já era sócio maioritário. Aos quarenta e cinco, numa viragem que a seu tempo contarei, era director de um jornal, e aos cinquenta e dois chairman de um dos mais poderosos grupos de comunicação do país. A política, entretanto, ficou para quem só sabe Servir. Leonor Paiva Watson

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Ascensão 2.

... antes devo dizer, porém, que tenho lembrado muito uma outra história, que me foi contada quando adolescente, sobre um homem, dono de vários casinos, cujo sucesso teve início na portaria de um deles.

Sim, acho que, afinal, é por aqui que vou começar.

Enquanto porteiro ficou íntimo de muitos dos habituais e mais poderosos, destacando-se por dar ouvidos às bebedeiras de fim de noite e por emprestar dinheiro "só para mais um joguinho". Entre uma e outra rodada perdida, acumulou pedidos e relatos, não raramente com pormenores de negociatas recém assinadas. Fez boas amizades e, como atrás de Tempo mais Tempo vem, acabou a trocar o tanto que tinha recebido pelo tanto que ainda tinha para dar. O ponto de viragem terá sido quando, sem maiores garantias, conseguiu empréstimo para comprar um casino em falência.

Não me contaram quanto Tempo foi ele porteiro, mas sei quanto Tempo demorei eu para chegar aqui. E esclareço, desde já, que não tive enganos ou quaisquer crises de identidade. Cedo ficou muito claro qual o papel que desempenharia nesta peça, que sempre exigi escrita de propósito para mim.

Abreviando, aos 15 anos filiei-me no partido e ali fiz amizade com quatro pessoas determinantes. Os cinco construímos a estrela que por muito tempo brilhou: Raul, filho do banqueiro Raul Albuquerque; Paulo, filho do juiz João Castanheira; Pedro, filho de Castro Portela, sócio maioritário de uma preponderante sociedade de advogados; Mateus, filho de um dos barões do partido; e eu, Leonardo, filho do senhor Loureiro, pedreiro.

Logo comecei a frequentar as suas casas e depressa consegui a simpatia de pais e avós. Fingia apreciar suas enfadonhas lições de moral ou suas infindáveis memórias, respectivamente, mostrando  sempre um sorriso e prestando amiúde uma palavra doce. Ouvinte muito atento dava aos velhos o que eles mais queriam: companhia. Enquanto o diabo esfregou um olho, consegui uma bolsa para estudar no colégio de Raul. Esse foi o meu ponto de viragem.

É, "(...) a obediência vale mais do que os sacrifícios, e a submissão vale mais do que a gordura de carneiros". Leonor Paiva Watson

domingo, janeiro 01, 2017

Ascensão 1.

Fiz como dizia o provérbio chinês. Sentei-me à beira do rio e esperei. Primeiro, esperei pela calma; depois esperei que a raiva das traições serenasse, depois ainda pela resignação; finalmente, pelo regresso da força para continuar. Apenas esperei. Quando horas, dias, semanas, meses e anos haviam já passado por aquele rio, quando tudo se calou, vi passar pelas suas águas os cadáveres dos meus inimigos. Um por um.

E foi assim de todas as vezes.

Traziam no rosto pálido todas as pequenas maldades que fizeram, todos os abusos de poder, todas as prepotências, todas as ambições, todas as vinganças patéticas, toda a ganância, todas as humilhações, todas as ameaças veladas, todos aqueles que fizeram desistir. Todas as traições. Enfim, toda a sua falta de estética. Mas acima de tudo - e só por isso cadáveres - traziam no rosto pálido todas as palavras mal ditas àqueles que, afinal, podiam mais do que eles. Traziam no rosto o veneno que tanto deram a provar. Traziam na pele as marcas dos mais poderosos.

Haveria de vê-los também. Levantei-me com deferência, porque à morte se deve sempre respeito. E caminhei. Até aqui. Até resumir uma vida nos dois parágrafos anteriores. Em breve cairei eu.

O que vos vou contar é a minha história. Começa assim:

A primeira vez que matei tinha cinco anos...  Leonor Paiva Watson

segunda-feira, dezembro 05, 2016

O diário do Homem mau 64.

Passaram três meses. Chove e parece que tudo se lava: a noite, o dia, as almas, o sangue, a festa. A festa...

Caras que nunca antes tinha visto.

As mulheres de "mise" nova, entre abraços e festinhas, a olharem de ladeiro as roupas e os sapatos das outras; os homens em grupos a dizerem parvoeiras, como moços pequenos vestidos de gente grande; a mesa farta que se vai compondo. As conversas paralelas, os risinhos patéticos e estridentes; e os risos vindos lá do fundo, cheios de vida. A feirinha das vaidades: o meu filho tem isto, o meu é melhor do que o teu, o meu carro é bestial, e o meu computador, foda-se, é a última das maravilhas. Somos todos os maiores, até um se lembrar de dizer que teve caganeira na noite anterior e, de repente, somos todos uns desgraçadinhos, vítimas da mais terrífica caganeira do Mundo e arredores.

Agarro-me ao pé, cheio de dores, por causa de uma pisadela de salto agulha, quando pelo portão do campo entra a Maria Leonor. Traz os filhos, mas ela é a mais bonita. Aceitou o convite da Zulmira, que a foi buscar, beijinho, beijinho, e vêm as duas ao meu encontro. Eu, bendito entre as mulheres.

Deve ser esta a propalada solidariedade feminina, ensaia já a minha mente, mas não chego longe na tese, porque aparece o Serafim com as suas palmadas nas costas, deveras agradado pela festarola. Ao que parece, estou "mais sociável", e ele fica "muito contente", pois um homem "tem de pertencer" e "viver em comunidade". Quero mandá-lo à merda, mas os filhos não deixam. O Micas ri-se e com os olhos pede-me que não seja mau. A rapariga concorda com tudo o que diz o Serafim, que fica de ego convenientemente afagado. O pequeno perguntante no colo do meu mais velho. "Vês Oshen, tenho gel no cabelo".

A Maria Leonor e a Zulmira, as duas lindas. Uma mais alta e rija, a outra mais redonda e voluptuosa. As duas senhoras de si, uma a mandar na casa que já foi da outra. A que mandou cheia de cautelas, e a que manda a pedir conselhos. Estão ali as minhas mulheres.
Eu de espectador, de cada expressão, de cada gesto. Da Vida que se esconde.

A festa há-de trazer a noite. À medida que o sol se vai, as ancas libertam-se, mulheres e homens descalços dançam na terra, debaixo das ramadas, em movimentos de aproximação e afastamento, soltos, desenhando exuberâncias regadas a vinho. Muito vinho. Até o Serafim ri, colorido como uma arara, agarrado ao braço do marido do meu filho.
Eu de espectador, de cada expressão, de cada gesto. Da Vida que se esconde.

Uma comédia.

Pergunto-me sobre quantos tombam lá longe às balas, enquanto estes tombam de bêbados. Quantos morrem à fome, enquanto estes enchem o bandulho.

Dou por mim a pensar que a festa que nos treina a Indiferença, é a festa que nos impede de dar um tiro nos cornos. Que a festa que nos distrai da lucidez, protege-nos da loucura.

Bebei enquanto puderdes. Celebrai o que quer que seja, porque tudo acabará, de uma forma ou de outra. Não penseis nos outros, que se fodam os outros, expiai as vossas dores de primeiro Mundo, que isso é já o bastante. Celebrai o que quer que seja, porque tudo acabará, de uma forma ou de outra. E que importa?
 
Assim como assim, cada um tem o seu Destino e Deus lá sabe. Venha mais um de tinto.

Assim como assim, está quase perfeito, imune ao resto do Mundo.

Mas eis que entra o ex-marido da Zulmira armado de caçadeira. Um tiro para o ar, os gritos, cada um a fugir para onde calha, os sapatos que se espalham, as quedas, a aflição, as pessoas que se abraçam, as outras que se empurram, umas que dão as mãos, outras que correm sozinhas. Um segundo tiro directo ao coração da Zulmira; outro ao da Maria Leonor; um para mim; o último para ele.

De súbito, tudo muda.

Tudo fica branco. Os olhos quentes. Apaga-se a luz devagarinho. Os sons estão longe, as pernas estão dormentes e tenho vontade de sorrir. Sinto paz. Alguém me aperta a mão.

... É o pequeno perguntante. Está comigo. Já consegue dormir mais tranquilo.

Há pouco veio trazer-me um livro de Primo Levi que procurei, ansioso.

"Vós que viveis tranquilos
nas vossas casas aquecidas,
vós que encontrais regressando à noite
comida quente e rostos amigos,
considerai se isto é um homem:
quem trabalha na lama,
quem não conhece a paz,
quem luta por meio pão,
quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher:
sem cabelo e sem nome,
sem mais força para recordar,
vazios os olhos e frio o regaço,
como uma rã no inverno.
Meditai que isto aconteceu.
Recomendo-vos estas palavras,
esculpi-as no vosso coração,
estando em casa, andando pela rua,
ao deitar-vos e ao levantar-vos.
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
que a doença vos entrave,
que os vossos filhos vos virem a cara" . Leonor Paiva Watson

domingo, novembro 13, 2016

O diário do Homem mau 63.

Acordei de um pesadelo. Mais um. Um aperto no peito tranca-me o grito. A noite tem aquele silêncio suspeito que antecipa as tragédias.

Uma garagem com paredes de resmas de papel atadas a cordel que se fechavam sobre mim. O grito que não saía. Um estranho que entrava pelo fino corredor que as paredes deixavam e apertava o meu pescoço.

Anos volvidos e ainda tenho pesadelos, ainda sinto o medo de ser apanhado. Foram horas e anos a analisar e a passar informação, a blindar-me, anos de uma vida completamente dupla, num sítio desprezível, que era só um pequenino exemplo das razões pelas quais o Mundo está como está.

... nunca soube, na plenitude, como era usada a informação que passava, mas vi alguns dos nomes que coleccionei a serem investigados, e alguns, poucos, a terem o tratamento merecido. Não fazia perguntas, obedecia, cumpria uma missão. "Watson, tudo o que conseguires sobre fulano tal", "Watson, tenta perceber que ligação tem sicrano a beltrano". Sim senhor. Fi-lo de forma implacável. Dos vinte anos que ali trabalhei, quinze foram em duplicidade. Completamente blindado, até começar a ficar farto e propositadamente distraído. Até me permitirem sair. Era bem pago, lá isso era, mas não podia mexer no dinheiro. Quando estava mesmo muito aflito pedia ao Thomas que me fizesse "empréstimo". Nem a Maria Leonor sabia. E agora também não está cá para ler o diário, faceta incauta deste que mal fala enquanto o sol raia.

A Zulmira dorme, tranquila, as ancas pronunciadas, linda. A noite vai-me ficando mais calma no peito. Mas agora que escrevo sobre esses tempos, atento na palavra "dupla" e penso na importância que o número dois tem tido na minha vida. Dois filhos, duas mulheres, que chegaram a viver comigo ao mesmo tempo, devido aos ímpetos salvadores de sua excelência senhora dona Maria Leonor. Sempre duas casas, duas profissões em simultâneo por quase duas décadas; duas contas bancárias, uma visível, outra não. Dois bolsos vazios... até à segunda metade da vida.

Muito pó comi. No meio de tudo, gostei de dar aulas, de ser professor. Isso sim. Por falar em aulas, amanhã tenho de ajudar o puto com um trabalho para a escola. O pai dele anda a rondar a casa. Continua a trabalhar no campo, não tinha por que o despedir, mas já por duas vezes o vi aqui perto da entrada. Abeirei-em da porta e puxei de um cigarro. Foi suficiente. Quererá falar com a Zulmira. Não tenho nada com isso. Com o catraio a relação é quase inexistente, é mais distante do que era o meu avô, cuja frieza terá tido em mim os seus efeitos, mas à minha irmã matou. Não sei por que me lembro dela agora.

... a noite vai alta e uma página em branca sempre seduz. A insónia é bom pretexto, e se for para a cama não vou deixar a mulher em paz. Hoje fizemos amor debaixo da figueira, a terra húmida, os troncos a desenharem espaços de luz e sombra... de sagrado e profano.

Disse-me que está a preparar uma festa para o meu aniversário, diz que se sente feliz, que quer fazer um jantar debaixo das ramadas, que quer que chame os filhos, o padre, os vizinhos que ajudaram na vindima. Refutei, falei da minha necessidade de silêncio, de como sou avesso a essas coisas, de como detesto festas só porque sim, do triste estado do Mundo, das ratazanas que começam a sair das tocas, de Camus, da peste a regressar, do Medo, de como tudo isso me leva horas em reflexão, enfim, de tudo para justificar a minha impaciência para com a vidinha.

Desapiedada respondeu: "O Mundo, Camus, a peste... Que peste, Watson? Eu quero que a peste se foda, Watson." Leonor Paiva Watson

segunda-feira, junho 27, 2016

O diário do Homem mau 52.

Assim falou Camus: "O bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada. E sabia também que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz."

"A Peste" encontrei-a aqui perdida, deveria estar na casa do Alentejo, mas anda por aqui. A peste está em todo o lado, a incubar, à espera do desespero dos homens comuns, daqueles que não mais confiam e querem castigar os seus líderes, ratos vis e sujos que minaram a confiança nas instituições, que deixaram os povos à mercê da solidão, que os deixaram à mercê do ressentimento que leva às más decisões, dos ratos ainda piores que hão-de vir.

...vou fumar um cigarro lá fora. Lembrar a noite com a Zulmira, lembrar o amor feito ainda às escondidas no quarto proibido. Não queria a Maria Leonor que abrisse aquele quarto, que enfrentasse os meus fantasmas? Não abriu ela a porta sem aviso, libertando todas as dores e esfregando-me a poça de sangue que ainda hoje vejo no chão? Não queria que enfrentasse a morte? Pois bem, foi em cima da morte que reinventei vida. Ah, Maria Leonor, não se brinca com um sobrevivente.

Um cigarrinho e uma mijinha no plátano. Volto daqui a bocado, preciso escrever e olhar as ancas da Zulmira a arrumar a casa em silêncio.

Regresso, devidamente oxigenado e aliviado.

E regresso a Camus, pela boca de Rieux: "...para desgraça e ensinamento dos homens". Certo da desgraça, completamente incrédulo face ao ensinamento. Se alguma coisa alguma vez tivéssemos aprendido, os ratos estariam já eliminados. Olho para o Mundo e nada me apraz dizer, excepto que metade morre de fome, a outra metade de falta de valores; e todos morrem às mãos de elites corruptas, da lei do mais forte, de gente que deu cabo de projectos que poderiam, de facto, ter construído um Mundo melhor. Políticos, diplomatas, Comunicação Social, todos, desde o mais pequeno exemplo, ao maior, traíram e traem todos os dias os seus.

O Homem comum está só. No melhor dos mundos, é tratado com condescendência, com falta de respeito, é enganado com um sorriso nos dentes e a conivência dos Media. O Homem comum não confia. A existência das instituições e organizações que deveriam protegê-lo são governadas por charlatães, por conveniências de maior ou mais pequena escala. Falharam. Falhou assim a Democracia e não tenho grandes dúvidas (mas eu sou um velho, pessimista por convicção) de que o Homem comum há-de castigá-los, decidindo ainda pior, cedendo pois aos seus medos, elevando ao Poder ratos ainda piores.

Poderemos estar assim tão admirados com os Brexits da vida?

Hão-de os medos fazer os dias. Ergueremos mais barreiras e divisões, ouviremos sobre os povos papão. Ouviremos ainda sobre o Deus bom e os Deuses maus. Todos, todos os velhos fantasmas se levantarão porque o Homem comum, que tem medo e está só, não sabe que não é a ausência de fronteiras e o Deus dos outros que provoca a morte, mas sim os homens-elite, os que elevaram a Deus o dinheiro e a ganância.

Tece assim o Homem comum, na sua ignorância, na sua solidão, na sua alma de homem traído, o regresso do fascismo. E o que há de novo aqui? Nada. Absolutamente nada.

Assim falou Camus: "...os homens são sempre os mesmos". Leonor Paiva Watson

sexta-feira, maio 20, 2016

O diário do Homem mau 44.

Sou a favor da eutanásia e respeito suicídio. Não me apetece escrever sobre as devidas diferenças, apenas que a libertação é um direito.

...no fim, o Coelho já mal falava, já mal pronunciava a palavra, arregalava os olhos e pedia "morf", pela metade. O rosto daquele pedido era o retrato do terror. Lembro o dia em que tive de fazer o percurso do seu quarto até à sala do médico para dizer o impensável. "Ambos sabemos que vai partir, dê-lhe morfina e em força." Assim, a seco. A mãe a olhar-me, curvada, mirrada, consentiu com a cabeça. Assumíamos ali a sentença.

Ninguém quer morrer, abandonar os seus, ninguém deixa de amar aqueles por quem daria a vida, mas há dores tão agudas, tão inenarráveis, que deixam tão sem vida, tão só apenas com a carcaça, que, perante elas, só um psicopata, que não consegue colocar-se no lugar do outro, que tem o secreto desejo de ver sofrer, de controlar aquilo que não lhe diz respeito, pode argumentar contra o direito de libertação.

...A morfina não resultou. Mas a morte foi generosa e veio depressa. Mas e se não viesse? Por quanto tempo teria aquele corpo de suportar aquele sofrimento excruciante? Apenas, e só apenas, enquanto quisesse. Ponto.

E Deus? Deus é Amor, e habita nos homens livres. O resto é medo ou, pior, Poder. Leonor Paiva Watson

quinta-feira, janeiro 21, 2016

O diário do Homem mau 9.


Não encontro "Portugal, Hoje - O Medo de Existir", do José Gil, e já estou fodido. Do que mais me irrita é não saber dos meus livros. Da cidade foi o que trouxe: umas largas centenas deles. Relativamente à maioria das coisas, estou-me cagando, mas exijo saber onde está cada livro meu, e quando ela mos muda de sítio fico possuído. Já andei ao pontapé e à mocada às estantes.

Não encontrei o que queria mas encontrei "A Arte de Viver" do Epicteto e, como sempre faço, abri-o ao acaso e esbarrei nesta frase:"É sinal de pobreza de espírito gastar muito tempo com assuntos que digam respeito ao corpo, tais como muito exercício, muita comida, muita bebida, defecar ou praticar o coito com frequência." Enfim...

À parte do defecar, que me parece um imperativo biológico incontornável, tenho para mim que, mais tarde ou mais cedo, todo o homem deixa de dar importância às coisas que o filósofo refere, pois todo o Homem faz voto de pobreza, obediência e castidade, quer queira ou não. O meu de pobreza foi quando me vi sozinho a suportar financeiramente uma família durante anos. O de obediência foi quando me morreu o melhor amigo nos braços, aí a gente sabe quem Manda, os joelhos dobram e "seja feita a sua vontade, a Sua vontade, assim na Terra como no Céu". O da castidade vem com o da obediência: acorremos às exigências da vida, reduzimo-nos a úteis, e com o chorrilho de mentiras que vamos ouvindo a  cada esquina, aprendemos a evitar o sentir, ou melhor, o pesar do sentir.

Não percebo a pertinência de Epicteto em referi-lo. Não vejo onde esteja a necessidade de querer limitar precocemente o que a vida acabará por limitar. O mesmo digo das religiões, sempre a carência de controlar as massas, e de se meterem naquilo que só a cada um diz respeito. Tenho para mim que o Homem jamais conseguiria trocar a sua individualidade, que é o que o distingue dos restantes animais, pela natureza de uma formiga, que não existe sem a repetição exacta do que fazem as companheiras de carreiro... Claro que muitos de nós fazem bem de conta que são formigas, mas deve ser por isso que existem palavras como "falsidade", "conveniência" e "neurose".

Enfim, há toda uma vontade de contrariar a humanidade, de acabar com a sensação, e criar a perfeição, que me indigna deveras... E que tem Deus que ver com isto? Com esta prepotência dos homens, das religiões, das igrejas? Nada, me parece.

Termino fodido porque ainda não encontrei o livro que queria, mas recordo uma frase de  Epicuro, na sua "Carta Sobre a Felicidade": "Todo o Bem e todo o Mal residem na sensação, e a morte é a erradicação das sensações". Só a morte. Morremos é, muitas vezes, antes de o corpo falir... não valerá a pena, portanto, tanta preocupação por antecipação.

Continuo sozinho, trato do campo, vou lendo e escrevendo. A velha não manda notícias...

Vou defecar. Leonor Paiva Watson

domingo, setembro 20, 2015

O diário do Homem mau 1.

O que aqui relato neste meu diário aconteceu ontem, pela uma da madrugada, quando a porta da minha cozinha se abriu repentinamente, fazendo estremecer os móveis pendurados na paredes velhas do costume. Eu estava à janela a fumar e ela veio ter comigo, "tu já não me escreves um poema há anos", disse, seguindo-se um chorrilho de tu-não-isto, tu-não-aquilo. Se pudesse fechar os ouvidos e olhar só para a sua expressão, diria que estava a ladrar. Ela também não era a mulher de outros tempos. Não disse nada, deixei-a gritar. Comovi-me, porém, quando, encostada ao frigorífico, escorregou por ele abaixo, e aninhada no chão, desatou a chorar. Soluçava profundamente. Foi-se embora depois, derrotada, quando percebeu que eu não iria abrir a boca.

Passou uma hora, passaram duas, três até, quando fui para a cama mais sossegado, pois já não haveria perigo de voltar ao massacre do tu-não-isto. Queria dormir, descansar os ossos, mas eis que sou acometido por uma urgente vontade de vomitar o que há anos andava aqui entre o peito e a boca.

Levantei-me e numa golfada escrevi:

Foi-se o desejo
nos desencontros do tesão,
ora eu te queria
e ninguém estava,
ora querias-me tu
e eu declinava;
entre papeis vários,
inadiáveis responsabilidades
e contas sem fim,
mais o ranho,
as birras
e a falta de pilim,
matamo-nos em utilidades.
Somos uteis amor.
Apenas uteis.
E depois há sempre um parente doente
ou quase a morrer,
... que vontade de foder?

Coloquei-o no frigorífico. "Aqui tens o poema", sublinhei.
Dormi profundamente. Leonor Paiva Watson